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Uma Homenagem ao Guará

Atualizado: 14 de set. de 2023


Autor: Igor Trindade

Revisão: João Vítor Silveira e Marcelo D. Macedo Guaracy Sant’anna foi um cantor e compositor carioca, nascido em 13 de agosto de 1955. Passou a vida no Engenho da Rainha, bairro do subúrbio carioca e ingressou na Polícia Militar, onde trabalhou a maior parte da vida. Sua trajetória como artista foi marcada por diversos sucessos. O maior deles é, sem sombra de dúvidas, o samba “Sorriso Aberto”, faixa-título do disco de Jovelina Pérola Negra em 1988, cantado por nove em cada dez rodas até os dias atuais. Jovelina também eternizaria “Catatau”, “Sonho Juvenil (Garota Zona Sul)” e o samba enredo da GRES Em cima da Hora, “33 – Destino de D. Pedro”, composto para o carnaval de 1984. Anteriormente, Neguinho da Beija Flor já havia gravado o samba “Problema Social”, em seu disco “Ofício de Puxador” de 1985, música que seria depois relançada por Seu Jorge no álbum “Ana e Jorge” de 2005. Almir Guineto gravou o conhecido partido “Destino de Maria”, no disco “Sorriso Novo” também em 1985, além de “Eterno Companheiro” e “Batendo na Palma da Mão” no disco “Perfume de Champanhe” de 1987.

O Grupo Só Preto Sem Preconceito lançou a famosa “Viola em Bandoleira” no disco “O Quinto Segredo” de 1996. Mais tarde, “Singelo Menestrel” foi gravada em 1999 por Dudu Nobre, álbum homônimo.

Uma curiosidade sobre os sambas “Sorriso Aberto” e “Viola em Bandoleira” foi contada pelo primo de Guará, o cantor e compositor Xandy de Pilares, durante uma live com a cantora Teresa Cristina no ano de 2020. Segundo ele, esses sambas eram originalmente lentos e, só a partir das primeiras gravações é que se tornaram mais rápidos, sofrendo até discretas alterações na melodia.

SAMBAS DE ENREDO E se a trajetória nos sambas de meio de ano foi brilhante, a sua contribuição para os sambas de enredo não foi somente vencedora, mas também reconhecida. Guará ganhou três Estandartes de Ouro seguidos com seus sambas-enredo, todos no grupo 1B (equivalente ao grupo de acesso/série ouro atual): Em 1984, com o famoso “33 – Destino de D. Pedro II” pela Em Cima da Hora (Reeditado em 2008 e novamente em 2022), em parceria com Jorginho das Rosas; em 1985; Pelo Acadêmicos do Engenho da Rainha, “Não Existe Pecado do Lado de Baixo do Equador”, junto com Marco de Lima e De Minas; Em 86, triunfou na mesma agremiação com “Ganga-Zumba, a Raiz da Liberdade” (Reeditado em 2007), em parceria com De Minas, Bizil e com o mitológico Jacy Inspiração. Guará também é autor do Samba de 1983 da Em Cima da Hora, com “Enredo sem Enredo”.

CONFUSÃO ENTRE HOMÔNIMOS “Guará” é um apelido comum a vários compositores ao longo dos tempos; por conta disso, os registros são confusos em relação a autoria de diversas músicas. Outro compositor muito gravado e que, vez em quando, é confundido com o protagonista deste texto é Guará da Empresa, multi campeão de Sambas Enredo, também parceiro de Almir Guineto e Beto sem Braço; este sim, com verbete no Dicionário Cravo Albin, que, aliás, confunde os dois Guarás.

As empresas que controlam os direitos autorais têm informação precária sobre as obras, alguns sambas gravados sequer têm autoria confirmada. Por conta disso não se pode comprovar a origem de algumas canções atribuídas ao Guará de Cavalcanti. Na esteira dessa confusão sobre homônimos, há algum tempo corre a dúvida se o partido alto “Dalila, Cadê Guará” (Arlindo Cruz/Almir Guineto) se refere ao Guaracy Sant’anna, estória que foi desmentida pela filha dele, Iara Sant’anna, em consulta para produção deste texto.

A VOZ DO COMPOSITOR A voz do Mestre Guaracy Sant’anna pode ser ouvida no raríssimo LP “Aconteça o que Aconteça”, de 1984, disponível no site do Instituto Memória Musical Brasileira (immub.org). Neste disco “pau de sebo”, nome que se dava a álbuns gravados por vários artistas em conjunto – Um disco como esse revelou Zeca Pagodinho – Guará canta “Viola Em Bandoleira” e a faixa-título, que seria depois lançada em compacto por ele mesmo e, mais tarde, regravada por Almir Guineto. Neste disco também cantam Ivo Meirelles, Efson, Preto Jóia, entre outros compositores da época.

MEMÓRIA E ESQUECIMENTO Guaracy Sant’anna faleceu aos 33 anos, dia 13/07/1988, no seu auge, assassinado a tiros em um crime ainda sem esclarecimento. Apesar disso, a memória desse baluarte brasileiro, negro e suburbano permanece viva nas rodas de Samba populares. Mesmo tendo obras eternizadas na voz de grandes intérpretes, ainda está longe de escapar da invisibilidade comum a tantos gênios negros e pobres que o Brasil formou com sua complexidade, que vivem e morrem no anonimato, sem rosto, sem direitos nem ascensão social. Nesse contexto, é necessário contar vida e obra em detalhes, divulgar novas músicas, gravar inéditas e falar sobre eles, para que ao menos tenham algum (tardio) reconhecimento.

HOMENAGENS

Após sua morte, Guará foi homenageado em algumas ocasiões. Jovelina Pérola Negra escreveu com Carlito o samba “Poeta do Morro” em 1990, gravado no álbum “Amigos Chegados”. O grupo Chora Menino, de SP, lançou “Tributo ao Mestre Guará” no LP “Canto das Raças Axé” de 1992. No CD “Pagode pra Valer”, gravação do ilustre Pagode da Tia Doca, pode-se ouvir uma homenagem das mais emocionantes. Ao gravar “Sorriso aberto”, o grupo substituiu no fim o canto a plenos pulmões do tradicional “Lalaiá” pelo verso “Essa é a homenagem ao Guará”.


Fontes e Contribuições Ajuda de Gláucia Marinho, Raphael Ruiz, Guilherme Zanfra, Alvinho (Dep. Cultural G.R.E.S. Em Cima da Hora), Juliana Joannou;

Depoimento informal de Iara Sant’anna, filha de Guaracy Sant’anna; Página Papo de Samba: https://web.facebook.com/arielmenestrel/posts/505780843767265?_rdc=1&_rdr; Instituto Memória Musical – www.immub.org; Site Galeria do Samba - https://www.galeriadosamba.com.br; Wikipedia - https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_dos_vencedores_do_Estandarte_de_Ouro; Doc “Partideiros” - https://www.youtube.com/watch?v=ytsMg3skOzc

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